A sangria dos açudes é a certeza de que não haverá sede nem fome nas cidades mais secas do Rio Grande do Norte por pelo menos dois anos. O abastecimento de água da população é garantido, pequenos e grandes produtores rurais da área voltam a ter confiança de aumentar os rebanhos e plantações, a pesca se fortalece e uma cadeia de consequências positivas decorre a partir daí. Mas mais do que isso: o povo sertanejo volta a se sentir alegre e ganha força vital.

É assim que os 44 mil habitantes de Currais Novos, na região do Seridó, se sentem desde às 00h46 do último dia 2, quando o rio Currais Novos encheu o reservatório Dourado, responsável pelo abastecimento da cidade, e provocou o transbordamento no sangradouro depois de nove anos. A barragem estava com apenas 1,7% do volume total de água uma semana antes, praticamente seco. O povo de Currais Novos assistiu o momento exato em que a água ultrapassou a parede e festejou madrugada adentro.

O Dourado foi o primeiro reservatório público do Rio Grande do Norte a sangrar esse ano, segundo o monitoramento do Instituto de Gestão de Águas do Estado (Igarn). Até a sexta-feira (6), somente a barragem de Riacho da Cruz II, no Alto Oeste, também encheu. “Esse açude tava quase seco semana passada, eu passava aqui de moto no meio dele porque era só barro. Agora é uma alegria muito grande porque é fim de uma agonia. Só Deus mesmo”, relatou o currais-novense Eduardo Costa na última quinta-feira (4).

Nesse mesmo dia Eduardo deu o primeiro banho de açude na filha Maria Elisa, de 10 meses. Para ele e a mãe de Elisa, Niara Souza, foi como um batizado da filha. Da última vez que a barragem havia transbordado, em 2011, Eduardo sequer conhecia Niara. O açude minguou nesse intervalo e muita gente passou a desacreditar numa nova cheia, mas a crença na existência de Deus jamais apagou as esperanças de Eduardo. “Isso aqui é a benção de Deus. Para quem tem fé é sempre possível e eu nunca deixei de acreditar que esse açude encheria de novo.”

O componente religioso é absoluto para a existência do povo do semiárido, do qual faz parte o Seridó. Pequenos produtores e trabalhadores do setor agropecuário, principal atividade econômica da região, enfrentam a seca com reza, promessa e apego à esperança de que a benção viria em forma de chuva. Entre 2011 e 2017, o período mais severo da última e maior seca da história estadual, o setor teve uma queda de 46,8% na produção, segundo os dados da Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária e Pesca (Sape).

Em Currais Novos, o número de estabelecimentos agropecuários passou de 53 mil em 2006 para 36 mil em 2017, segundo o Censo Agropecuário do IBGE. Refletindo estatísticas semelhantes às da Sape, o efetivo do rebanho bovino caiu de 12,3 mil para 7,6 mil no mesmo período.

O Estado age contra a seca com ações a curto, médio e longo prazo, como operações de abastecimento de água dos municípios com carro-pipa, perfuração de poços, instalação de sistemas de dessalinização, distribuição de sementes para plantio e de forragem e ração animal para subsistência dos rebanhos e implantação de adutoras. Mas os pedidos a Deus não se encerram enquanto não houver água. E é por isso que a cheia repentina do Dourado em Currais Novos é considerado uma benção. “Tava seco e encheu em dois dias de chuva. Ano passado já foi um inverno de chuva boa e esse vai ser ainda mais se continuar desse jeito”, contou o agricultor Francisco Mendonça, de 60 anos.

O adolescente José Wellington, de 17 anos, rememorou uma sensação que sentiu somente aos 9 anos, em 2011. “Eu lembrava do açude mais fundo, mas essa parte aqui é muito boa. Agora sim, eu tou só na boa”, disse ele.

Encostado na parede do sangradouro do Dourado, bem debaixo da queda d’água, o que mais deixa o pré-adolescente Davi Lucas feliz com a sangria naquele momento não são os motivos citados, da água para beber, para plantar e alimentar o gado. Aos 11 anos, Davi ainda é muito novo para ter total consciência dessas questões, assim como era em 2011 na sangria que viu, mas não lembra. Importa mais para o garoto experimentar a sensação que escutou a família falar nos últimos nove anos: a da água batendo nas costas e seguindo o curso do rio.

“Minha família sempre falou disso aqui, é muito bom”, diz ele, que minutos antes, ainda fora d’água, havia respondido que não sentiu nada quando viu o açude transbordar. O primo José Helder corrige: “Ele diz isso, mas foi ele quem chamou o avô para vir aqui hoje”. Dentro d’água o garoto começa a entender por que a família falou tanto daquele banho e por que a cidade ficou em festa. E os seus próprios laços afetivos com o rio começam a ser tecidos.

Da Tribuna do Norte